Dileto Egas,
Concordo efusivamente com vossa idéia acerca da sobrevaloração dos supostos malefícios do fumo.
Entre um e outro trago, trago mais uma vez à baila aquela minha antiga idéia que vos propus naquela noite em que fumamos os nossos churchills em companhia (mezzo agradável) de Bobby Zimmerman. A sacada - arejando vossa memória - era a de que somente indivíduos com nível superior deveriam usufruir dos prazeres do tabaco. Quiçá, só os mestres e doutores. Um valor de corte para coeficiente de inteligência também seria aceitável. Creio que a razão para essa medida subjaz a premissa, mas como esta é uma carta aberta, explico aos menos sagazes.
É fato conhecido que apenas o indivíduos dotados de razoável inteligência são capazes de perceber os sutis prazeres da vida mundana. Note-se que estes apenas percebem posto que só aqueles de inteligência elevada, são efetivamente dotados de habilidades especiais para usufruir sensações prazerosas. Tabaco, álcool, fragrâncias e requintes culinários excitam conjuntamente os sentidos, ativando áreas do córtice cerebral extremamente especializadas e complexas em sua especificidade funcional. Provou-se, há muito, que mentes privilegiadas destacam-se justamente por seu potencial de integração coordenada entre as áreas mais nobres do encéfalo. Assim acontece nos artistas, campões olímpicos, cientistas, hábeis gatunos e intelectuais. Ora, com a capacidade de fruição de estímulos requintados acontece o mesmo! É preciso uma performance mental excelente para ser um bom apreciador das boas coisas terrenas como o tão conhecido tabac.
Mesmo pela óptica dos - supostos (vale sempre lembrar) - malefícios do fumo, a inteligência leva vantagem. Quem pode medir com propriedade o risco-benefício do uso de substâncias tóxicas senão o indivíduo informado em pleno uso de suas capacidades mentais? Há de ser abispado aquele que, a despeito de possíveis riscos à saúde, opta por fruir de uma possante cachimbada ou um trago ávido num 100mm. É preciso presença de espírito e donaire para ostentar um hábito destrutivo como se fosse uma coroa.
Não perderei tempo falando dos indivíduos pobremente dotados que adquirem diplomas, nem desmontando os argumentos dos pacifistas/ecologistas/homossexuais. O fumo não lhes pertence. Minha tese é límpida como o filtro de um Gitanes e exclui logo de saída todo aquele que não a compreende. Pediria a essas almas vitimadas pela precariedade que esquecessem os nobre fumantes e seus instrumentos de elevação espiritual. Que deixassem em paz aquilo que não podem compreender. Que permitissem que aquele indivíduo sob a fumaça densa, debruçado sobre seu cafezinho, na mesa ao lado, pense calmamente sobre as questões verdadeiramente importantes.
Tendido en mi sofá,
P.E
Nos despedimos na véspera e parti para a estação de trem na manhã seguinte. Tentava aplacar o frio intenso pensando que o efeito da temperatura seria de cunho psicológico, mas minhas mãos tremiam dizendo que não. O chapéu tentava evitar que minhas idéias congelassem, mas foi a visão que esfriou minha alma.
Vi-a de braços dados com um sujeito de quem não consegui decifrar o rosto, mas do qual sabia das intenções. Apertei forte os punhos e consegui palpar meu coldre. Dominei meu ciúme e devaneei pelo sonho que foi conhecer a pianista, primeiro professora, depois amiga, mais além, amante. Suas mãos espectrais e seu espartilho concreto sempre me jogavam em um circuito de ambigüidades e foi nesse momento na estação que fundi amor e ódio.
Quebraria meu Fabergé, enlouqueceria, com sorte encontraria a morte. Em queda livre, caí sobre o casal. Faltaram-me as pernas e me sobraram as mãos autômatas para selar a sorte de uma vida que não fazia mais sentido. Lembrei-me do filho que ela esperava e que não era meu na minha insanidade.
Deixei-me conter pela segurança enquanto via meu futuro partir da estação entre acordes melódicos de uma sinfonia lírica que nunca aprendi a executar com virtude.
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Paul Exxner |
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