Topic
"BELEZA É SÓ UM CONCEITO"

Maneiras de comunicar veladamente sua feiúra pela internet (além de fotos borradas, distantes ou de um detalhe do pé):

- Posso dizer sem falsa modéstia que venho de uma família pobre no que diz respeito aos atributos estéticos

- Não sou feio; tampouco belo.

- Das qualidades que fazem o homem, faltam a mim apenas ser forte e formal.

- Horrendo não sou, outrossim passo a quilômetros do templo de afrodite.

- Sou honesto, limpo e dotado de alguma inteligência. Também não sou um quasímodo, posso te assegurar.

- Prometo te amar. Eu e meus dólares.

- A beleza te preocupa muito? Prefere um rosto bonito ou uma bolsa recheada?

DITTO

Control C + Control V de Allan Sieber, o mestre.

Tipos a serem evitados em 2007

 - Cineastas que discutem "políticas de incentivo" no sagrado ambiente do bar;

 - Pessoas "com projeto";

 - Qualquer cidadã/o que tenha alguma ligação com a Ivete Sangalo, Preta Gil ou genéricos;

 - Universitários ricos tocando samba;

 - Gente(?) que acha muito bom isso de não poder fumar em restaurantes;

 - Integrantes de boy bands de reggae - os famosos falsos hippies sujos;

 - Gente que dança e fecha os olhos em show;

 - Gente que vai a shows;

 - Gente que faz shows.

Verdade. Já fiz isso.

Esotérico

Recentemente Plutão foi reduzido à categoria de sub-planeta, quase-asteróide. A agitação no meio místico, astrológico foi imediata.

Os regidos ( assim falam os tarólogos e afins) sofreriam as conseqüências do rebaixamento e partiram para a ofensiva. São os nascidos sob o signo de Escorpião os mais afetados. Quem nasceu entre 23/10 e 21/11 passa a ser uma pessoa desgovernada. Em última análise um ser de segunda classe. Uma atitude politicamente incorreta deflagrada pelos astrônomos.

Foram movidos mais de 400 processos judiciária contra o observatório de Monte Palomar requerendo a óbvia indenização por perdas morais. Alguns requerimentos chegaram a solicitações de US$ 25 milhões que deveriam ser pagas pelo astrônomo chefe (1/3), pelo governo da Califórnia (1/4) e pela rede de televisão que primeiro propalou a notícia (5/12).

 O fato é que a revisão da escala de Plutão vingou muitos desafetos dos nascidos entre outubro e novembro, somando a isso o preconceito que existe a respeito de um animal tão medonho que tem o veneno na cauda. Um argumento parcialmente pertinente, tendo em vista que muitos de caráter duvidoso nascem em determinadas épocas agrupadas do ano.

Pensando bem, seria mais interessante para o bem de todos acabar com a Lua (antiga inimiga dos lunáticos, que jogam-na pedras e herdaram-lhe a adjetivação), regente de um signo muito mais sinistro que é o de Câncer

SEIS CHINELAS E BALAS INFINITAS (PARTE I)


Uma manhã fria acariciou as pálpebras do pelado Horst. Molhou os lábios com um pouco de café enquanto tentou vislumbrar algo de menos cinza através da janela suja. O apito do trem, seu despertador diário irrompeu mais uma vez, distante, mas logo próximo seguido de um ribombar de rodas metálicas e pistões. Repousou a xícara e acariciou a barba por fazer, escutando um ronronar manhoso atrás de si.

Diane se aproximou da mesa usando uma de suas cuecas, apanhou o maço e acendeu um cigarro, passando a olhar também para fora. Passado alguns instantes pareceu dar conta de Horst acariciando a barba, sorriu e perguntou por Érika.

- Érika... Érika está lá fora, uma hora ela chega sabe, ela vai bater na porta, trazer presentes, abraçar o pai e a irmã e... a gente vai dar outra festinha, agora me traz a vodca que você escondeu.

- A vodca acabou ontem – continuo sorrindo assoprando a fumaça.

- É, acabou em todos os lugares, menos na sua bolsa – e sem esperar reação levantou-se apanhou a bolsa atrás da poltrona, retirou a garrafa e deu vários goles.

A irmã de Érika balbuciava dentro do quarto. Da sala o casal podia escutar as risadinhas de Uta cortando figurinhas de papel com a tesoura sem pontas da sua caixa de brinquedos por vários minutos. Pararam de escutar as palavras incompreensíveis e testemunharam a saída de Uta nua de seu quarto balançando as figuras de papel. Horst levantou-se apanhou um roupão e vestiu a filha doente, colocando-a em uma cadeira da sala.

Diane acendeu outro cigarro, gostava dali. Contemplou por instantes o velho sacana facínora se desdobrando em cuidados com a doentinha como se fosse um ordeiro pai de família. Por enquanto tinha teto, comida, nicotina, bebida, haxixe à vontade e um cacete enrugado que a satisfazia mais do que ela desejava admitir. Sim, por enquanto estava em situação melhor do que vivendo naquele quarto apertado em Berlim, explorada por aquela cafetina turca, transado com velhos mais feios que Horst, longe da família. Largou o colégio em Lübeck porque foda-se-encheu-o-saco-a-família-não-tem-nada-a-ver-com-isso e passou a viver a grande vida isso sim. Uma noite sem dinheiro e trepada em troca de haxixe, tudo na mais perfeita ordem. Então a surpresa, o traficante-malvadão-que-já-matou-quatro-turcos era pai certinho da Érika, ora mais! Nestes momentos em que as coincidências aparentam ser sinais, desígnios misteriosos, pensou em aceitar o convite do velho, talvez mais pela possibilidade de fazer uma surpresa para Érika, assustar a certinha, “Oi Érika. Há cinco meses a gente virava a noite estudando química e biologia e agora estou tendo aulas práticas dessas matérias com seu pai, tudo bem?”.  Apagou o cigarro no cinzeiro, acendeu outro e observou velho passar a mão na cabeça da filha. Sentiria falta de Uta, o serviço social viria recolhe-la em breve, torcia para que Érika viesse junto, gostava de assustar as colegas. Neste intervalo de pensamentos escutou um novo apito e um novo trem passava próximo a casa.

Logo Horst achou mais uma garrafa na despensa e recomeçou a beber, recostou-se na poltrona e ligou o rádio.  Colocou a garrafa no chão e passou a fazer trejeitos com os dedos indicadores simulando um maestro, bateu a mão no peito e começou a cantar, cada vez mais alto, incomodando Diane que foi fumar no quintal. O lugar estava desolado, com algum entulho, vegetação rasteira e um frio desalentador. Tirou a cueca e deixou que ela caísse na relva. Continuou caminhando lentamente observando a linha férrea se prolongar além da linha do horizonte de uma ponta para outra. Estavam em meio ao nada, num vácuo entre Dresden e Leipzig, gostava dali,  protegidos em uma bolha dourada protegidos do resto do mundo, o único intruso era aquele fio metálico irritante. Levantou os braços com as mãos em garra simulando uma bazuca invisível e atirou em várias partes do trilho, agachou-se e fez de conta que o trem vinha em disparada, descarrilou deixando tudo explodir e assim ela se pôs a vasculhar as ferragens atrás de dinheiro e tudo mais. Olhou para trás e viu Horst cambaleando vindo em sua direção e por isto continuou caminhando fingindo não ter visto nada, bastava caminhar para se distanciar daquele velho lerdo em passo trôpego.

-- D. Magérbio in "Contos Mambembes"

SEIS CHINELAS E BALAS INFINITAS (PARTE II)

 

Horst vinha cantarolando como Peter Schreier com toda voz grossa que pudesse juntar. Jogou longe a garrafa vazia, abriu bem os braços e cantou mais forte ainda, a paisagem sem árvores ou construções servindo de audiência solene. Perseverante foi apressando o passo, enquanto Diane refreava o dela, aconchegou-se a abraçou mordendo sua orelha. A loira fez menção de se afastar mas apenas balançou a cabeça. Ficaram uns instantes próximos um do outro e olharam para trás. Uta havia tirado também a sua roupa, e vinha chorando caminhando sem rumo para lá e para cá. Diane achou engraçado que a coitada tenha se lembrado de colocar calçado para se proteger do chão pedregoso. Olhou para ela e o velho e viu que também estavam calçados. Riu sozinha e pensou como se despiram de todas as preocupações mas ainda tinham um resquício de auto-proteção, pensou que isso era bom, pensou nessa concidência como um novo designo do destino que assinalava esperança no futuro, esperança que tudo ficasse bem. Uta seria levada e tratada; Horst se arrependeria de perder a família, largaria a vida de traficante e se tornaria um homem melhor; ela mesma iria voltar para Lübeck, se reconciliar com a mãe e retomar os estudos. Mas não naquele momento, aquele era o momento de fuzilar um novo trem que já vinha passando. Acariciou o seu próprio quadril checando a sua arma e se preparou para o bólido que já apontava no horizonte. Ela poderia estar atirando ensandecida, mas sabia que nunca iria se atirar embaixo do trem, tinha esperança.

Uta aproximou-se ainda chorando um pouco e agachou-se junto deles, tentando se proteger do frio; Horst continuava cantando, dessa vez estendendo o braço feliz consigo mesmo. Diane então começou a atirar com sua pistola de balas fantásticas, capazes de atravessar de ponta a ponta o trem e assim perfurou toda a fuselagem, acabou com os velhos imundos que a comeram, liquidou com as mulheres que a censuravam com o olhar e seus filhos bastardos, quebrou janelas, perfurou bancos e não cansou de atirar até que o trem sumiu no horizonte. Ela era jovem e por isto suas balas eram infinitas.

 

-- D. Magérbio in "Contos Mambembes"

MONÓLOGO NUM BAR: ALPERCATAS

 

“Eu não sou digno de amarrar as sandálias daquele que virá depois de mim” falou João Batista sobre o Cristo. Daí, poderemos nos lembrar que Jesus também usava alparcata, que não é de espantar, visto que naquela época elas eram as favoritas dos messias, apóstolos, santos, e também dos algozes romanos. Alparcata é uma sandália para homens de grande espírito, vide os monges da ordem dos franciscanos: todos usam essas nobres sandálias, não só por um dia terem pertencido ao vestuário dos maiores espíritos da humanidade, Cristo e São Francisco de Assis, mas também por possuírem baixo custo, simbolizando o desprendimento material e também a real falta de recursos econômicos . Conta-se que um homem muito rico foi tentar acompanhar o Cristo em suas pregações. O Salvador lhe deu permissão, com a condição de que ele abandonasse todas as riquezas que possuía e calçasse alparcatas de couro. Foi aí que surgiu a expressão “sandálias da humildade”, usada por Nelson Rodrigues e popularizada por um chulo programa de televisão atual. O homem nobre não estava preparado para essa nobre ação e, com tristeza, abandonou Jesus.

As alparcatas são um híbrido de sandálias e sapatos. Alguns a consideram os sapatos mais baratos do mercado, mas o que as distingue dos outros calçados, além da história dos homens que as usaram, são as resultantes de suas características físicas: o conforto, a leveza e a segurança que elas dão aos seus usuários.

As alpercatas mostram-se também na literatura. O movimento literário beatnik, que precedeu a moda hippie (fig 2), relançou a simplicidade, o desprendimento material e a reconstrução sóciocultural, e foi representado pela alparcata de couro. Ela também é bastante usada por personagens literários do realismo, do naturalismo e do modernismo brasileiro, como, por exemplo, personagens de João Guimarães Rosa: “...Miguilim feriu sua mãe perguntando onde diabos ela havia guardado suas alpercatas”.

Como se poderia imaginar, a alpergata não é um objeto exclusivo do mundo ocidental; ao contrário, conta-se que a alpargata foi inventada pelos chineses há mais de 5000 anos AC. Por volta dos séculos XI e XII, os árabes popularizaram seu uso na península, onde veio a se chamar Alpargata, ou, aquilo que aconchega os pés. Hoje, é mais popular entre os indianos, com destaque para os monges, que são os indivíduos a quem mais a imagem dessa sandália está associda. Conta-se que Sidarta e Buddah usavam-nas e, mais atualmente, Mahatma Gandhi, demonstrando, também no oriente, a sua relação com a grandeza de espírito (com viés para pobreza).

O interessante é que o símbolo dessas sandálias é o mesmo nos seis continentes e em quase todos os países: ela simboliza a humildade, o desprendimento material e a grandeza de espírito também nos lugares mais inóspitos e afastados da cultura ocidental. Disse quase todos os países, pois em Pedro II, Kabkaul e Papua Bonka, por exemplo, as alparcatas são símbolo de riqueza e ostentação, pois só os mais poderosos possuem condições de usar calçados.

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fig 1: Gandhi e suas famosas alpercatas marrons.

fig 2: veja atrás da hippie, uso com meias era comum.

fig 3: "shopping" em Kabkaul, mais ricos usam alpercata.


 

Eles e elas.

Tragava aquele cigarro com prazer. Observava a brasa aproximar-se do filtro e ouvia, cada vez mais alto, o estilar da palha queimando. Tomou mais um gole daquele uísque para encorajar um pensamento que se aproximava tímido, mas belo. Pensava nas mulheres, não como um gênero, mas em uma por vez. Pensava naquela euforia que sentia nas primeiras conversas, nos detalhes que observava daquela que tentava aproximar de si. Sempre ouvia, com atenção, elas lhe revelarem segredos cada vez mais íntimos.  Olhava para a ponta do cigarro, que há um segundo era brasa: em cinza transformava-se e nada podia fazer. Quantos cigarros já foram que eu tornei incandescente, traguei-lhe a fumaça e aproximei sua brasa para perto da minha boca, pensava. Tantos quantos eu afundei no cinzeiro ou atropelei com meu sapato, respondia-se. Depois da conquista, elas iam perdendo aquelas qualidades que ele percebera com profunda clareza até se transformarem em mais uma paixão acabada. No início, cada novo amor era para ele uma possibilidade de fuga e de satisfação, mas agora, só era cultivada por mero vício. Ele sabia disto, e continuava acendendo seus cigarros, um por vez, num ciclo de prazer e descontentamento, de fogo e de cinza, sem pensar por que o fazia, e sem muito cuidado para evitar queimar-se com as brasas.

MPB I

A música popular brasileira (doravante MPB) é, sem trocadilhos, um balaio de cultura. Hoje cedo, vi um par de periquitos verdes sobrevoando minha janela e o som das aves me fez lembrar das parcerias musicais que temos em nossa nação. São muitos as diferenças existentes entre os músicos. Na verdade,  há um perfeito contraste entre vira-latas e raceados entre os artistas.

 

Recentemente, foi publicada uma conhecida meta-análise das preferências musicais entre jovens universitários. A MPB teve folgada vantagem diante do roque e outros gêneros menos cotados. Aliás, a criatividade reina mesmo na escolha dos grupos da música bretã nacionais. Lembro-me de nomes que existiam há alguns anos como  Fabulosos Nightingales e  Jovem Cauteloso de Suas Montarias, sem contar  a Cachorrada Blues Band, autêntica representante da nouvelle vague da cena musical.

 

São vários os motivos de preferência nacional entre os jovens pela MPB. Influencados diretamente por uma geração anterior de desbunde, podemos constatar pós-adolescentes imediatos entoando ardentemente canções da época do Teatro Castro Alves, onde Caetano chocava a audiência com os requebros Odara. Ou a fila de ninfetas que se aglomeram diante do camarim no término dos shows de Chico.

 

É certo que a loucura ensaiada por parte da juventude seja respaldada pela onda de aproveitadores das grandes gravadoras. Mas há a saudável desconfiança crítica dessa massa juvenil quando Carlinhos Brown é escurraçado sob uma chuvas de garrafas de  água mineral, exatamente o mesmo produto que foi homenageado em música prévia sua. O alfa e o ômega da insensatez. Diria o ditado chinês que da nuvem negra cai a chuva restauradora e podemos refrescar os ânimos exaltados pela medianidade com os sambas bem cosidos buarquianos.  

 

O dinamismo social trôpego que existe em nossa sociedade é refletido nas tentativas de uso da música nacional para fugir da pobreza. Ou mesmo jovens de talento potencial em carreiras ortodoxas caírem no ostracismo e no vício comum à maioria dos músicos.

 

Então, na próxima vez em que sentar num barzinho numa roda de amigos, lembre-se daquela figura do músico num canto empunhando o pinho na expectativa de meio salário mínimo e lanche grátis no final do turno. É ali que se encontra condensada a miséria a alegrar a massa dos ouvintes-cidadãos.   

Leitura Sugerida

Atualmente, muitos conceitos sociais estão sendo revistos e fala-se de uma nova psicologia social. A literatura genética, com textos originais fazendo contrapontos relativos à obra final impressa, está cada vez mais esclarecedora e podemos ter acesso às idéias originais dos autores. Rabiscos elucidam o que pode ter duplo sentido no texto definitivo. Diagramas são fundamentais em entrelinhas imiscuídas no caixote do texto enxuto.

 

Assim, apreciamos hoje mais do que nunca a obra de Fernando Cannestra, ideólogo e matemático que viveu no planalto de Piratininga entre os séculos XVIII e XIX. É sabido que tinha penetração suficiente na alta sociedade na época para ser suspeito do desquite entre o general Tobias de Aguiar e a Marquesa de Santos. Esta última dona de um sobrado próximo ao Mosteiro de São Bento, onde receberia tempos depois o Imperador P I. Além de alcoviteiro da alta roda, é conhecida sua obra.

 

Transitando no terreno matemático-filosófico, foi um vanguardista a pari  passu com R Descartes. Seus modelos eram expressos por meio de agrupamentos e, nessa divisão que tecia em todas as escalas da vida cotidiana, foi precursor ímpar na subdivisão da persona. Aliás, há que se dizer que cunhou a expressão >Amentiae antes de qualquer psicopatologista da era moderna.

 

A divisão de Cannestra dos subtipos psicológicos abrangia: 1. anima (“tendência à extroversão, contummaz na imersão de calêndula e escórias da canna”); 2. volatea (“devaneio coletivo e absenteísmo na cadeira da retidão; tenacidade van”); 3. alberguismo (“dentre os citados salteadores, deppravados e itinerantes”); 4. ilhéus (“sem dúvida, amantes íntimos do negros d´alma desde tenra existência; incorrecção de vícios”). Contabilizou a combinação entre matizes diferentes entre os 4 pilares do temperamento, chegando a 2.395.008.000 possibilidades de personalidades distintas. [segundo tais cálculos, somente com a população mundial em torno de 5 bilhões de habitantes seria possível a existência das “almas gêmeas”- pelo menos 2 pares- fato que será possível a partir de 2015. Anulem-se, segundo Fernando Cannestra- quaisquer relatos de “almas gêmeas” prévios].

 

Pois bem, tendo dividido a têmpera humana, partiu a esmiuçar o talento do gênero a qual pertencia. E foi autêntica sua explanação a respeito da extorsão, habilidade que tanto viu durante sua vida cortesã. Admirava-lhe  sobretudo a habilidade social na ação de retirar o alheio por meio da força casando tal atitude com uma transparência perfeitamente legal. Atribuía aos executores da prática de “exemplares sublimes na selva social”, adaptados que eram a todas as adversidades. “Extorque-se, dilapide-se e profane co’ a idêntica e gêmea cor de neve da virgem e casta rappariga desabrochante; auferi o lucro como se abre a flor de cardeiro”, são palavras de Fernando. Enumerava 3 formas objetivas de concretizar a extorsão: a. luttérica (“a fundação de uma nova secta é meio próprio na arrecadação esquiva dentro das normas del´Rey. Tend~encia á progressão de capital lançando mão ao aggio”); 2. cordal (“no casamanto interesseiro encontra abrigo; quanta montaria velha a morrer antes da quadrúpede viçosa”); 3. hommeral (“daqui uma pitada a mais na força bruta extrai o diamante oculto, o ouro esquecido, a pataca escondida. Convém deixar a carne do expropriado sã’).

 

E vemos nas OBRAS COMPLETAS de Fernando Cannestra recém lançadas (Editora Malecoda, SP, 2006), autêntico documento de filologia de atualidade inconteste e de aplicabilidade real.

Almas Gêmeas

O que diferenciava Waldomiro dos outros homens era o fato que amava todas as mulheres. Era um sujeito de feições  rudes e rústicas, compleição mediana, suficientemente formal. Chamado pelos amigos de Miro, não negava nem recalcava nenhuma característica sua. Assumia, orgulhava-se e, algumas vezes, gabava-se de algum gesto ou fraseário que esclareciam sua postura viril.

 

A virilidade era assunto predileto de  Miro.

 

No seu convívio diário com mulheres de todas os tipos físicos e origens sociais, não fazia distinções entre as fêmeas. Era afoito na escolha de qualquer exemplar de sua curva normal. De coração, não via defeito em qualquer que fosse a  mulher e era exatamente aqui que aflorava um interesse constante, tenaz, em conquistar alguém do sexo oposto. E, nessa tarefa, Waldomiro nunca usou o disfarce da mentira.

 

Em suas conquistas, era extremamente objetivo. Não abordava as moças com rodeios, galanteios. Não mentia sobre posses, não enganava sobre seus gostos pessoais. Não se sabe bem como, a fama de Waldomiro era perpetuada pelas próprias mulheres e consistia de apenas duas características básicas.

 

A primeira era de que Miro pagava um jantar para a candidata a amante. A outra era de que ele fazia sexo apenas uma única vez na noite e pronto. Não incomodaria mais o resto da madrugada.

 

De fato, com o tempo, Waldomiro não se esforçava em fazer qualquer conquista. A fidedignidade com a qual cumpria as duas premissas fez com que lhe acorressem as mulheres possíveis em círculos sociais cada vez maiores. Era apenas a honestidade do jantar prometido seguido do sexo austero.

 

Isso fez com que ele chegasse a cifras inimagináveis a qualquer cidadão comum em sua performance sexual. Deixou fama através dos tempos e ainda existe um complemento curioso em sua vida amorosa.

 

Casado que era, não foi sustentável manter um sem-número de amantes sem que sua esposa não descobrisse. E, cada descoberta de nova amante, a mulher de Waldomiro apenas se dirigia a ele e, numa postura objetiva especular do marido, dizia apenas: “Miro, preciso de dinheiro. Irei passar dias na Europa”.

 

Nunca houve uma crise conjugal ou existencial entre os dois.  

CARTA A EGAS MARIANO (Missiva N°43 - Vol. XXI)

 

Dileto Egas,

Concordo efusivamente com vossa idéia acerca da sobrevaloração dos supostos malefícios do fumo.

Entre um e outro trago, trago mais uma vez à baila aquela minha antiga idéia que vos propus naquela noite em que fumamos os nossos churchills em companhia (mezzo agradável) de Bobby Zimmerman. A sacada - arejando vossa memória - era a de que somente indivíduos com nível superior deveriam usufruir dos prazeres do tabaco. Quiçá, só os mestres e doutores. Um valor de corte para coeficiente de inteligência também seria aceitável. Creio que a razão para essa medida subjaz a premissa, mas como esta é uma carta aberta, explico aos menos sagazes. 

É fato conhecido que apenas o indivíduos dotados de razoável inteligência são capazes de perceber os sutis prazeres da vida mundana. Note-se que estes apenas percebem posto que só aqueles de inteligência elevada, são efetivamente dotados de habilidades especiais para usufruir sensações prazerosas. Tabaco, álcool, fragrâncias e requintes culinários excitam conjuntamente os sentidos, ativando áreas do córtice cerebral extremamente especializadas e complexas em sua especificidade funcional. Provou-se, há muito, que mentes privilegiadas destacam-se justamente por seu potencial de integração coordenada entre as áreas mais nobres do encéfalo. Assim acontece nos artistas, campões olímpicos, cientistas, hábeis gatunos e intelectuais. Ora, com a capacidade de fruição de estímulos requintados acontece o mesmo! É preciso uma performance mental excelente para ser um bom apreciador das boas coisas terrenas como o tão conhecido tabac.

Mesmo pela óptica dos - supostos (vale sempre lembrar) - malefícios do fumo, a inteligência leva vantagem. Quem pode medir com propriedade o risco-benefício do uso de substâncias tóxicas senão o indivíduo informado em pleno uso de suas capacidades mentais? Há de ser abispado aquele que, a despeito de possíveis riscos à saúde, opta por fruir de uma possante cachimbada ou um trago ávido num 100mm. É preciso presença de espírito e donaire para ostentar um hábito destrutivo como se fosse uma coroa. 

Não perderei tempo falando dos indivíduos pobremente dotados que adquirem diplomas, nem desmontando os argumentos dos pacifistas/ecologistas/homossexuais. O fumo não lhes pertence. Minha tese é límpida como o filtro de um Gitanes e exclui logo de saída todo aquele que não a compreende. Pediria a essas almas vitimadas pela precariedade que esquecessem os nobre fumantes e seus instrumentos de elevação espiritual. Que deixassem em paz aquilo que não podem compreender. Que permitissem que aquele indivíduo sob a fumaça densa, debruçado sobre seu cafezinho, na mesa ao lado, pense calmamente sobre as questões verdadeiramente importantes.

Tendido en mi sofá,

P.E

Nos despedimos na véspera e parti para a estação de trem na manhã seguinte. Tentava aplacar o frio intenso pensando que o efeito da temperatura seria de cunho psicológico, mas minhas mãos tremiam dizendo que não. O chapéu tentava evitar que minhas idéias congelassem, mas foi a visão que esfriou minha alma.

 

Vi-a de braços dados com um sujeito de quem não consegui decifrar o rosto, mas do qual sabia das intenções. Apertei forte os punhos e consegui palpar meu  coldre. Dominei meu ciúme e devaneei pelo sonho que foi conhecer a pianista, primeiro professora, depois amiga, mais além, amante. Suas mãos espectrais e seu espartilho concreto sempre me jogavam em um circuito de ambigüidades e foi nesse momento na estação que fundi amor e ódio.

 

 Quebraria meu Fabergé, enlouqueceria, com sorte encontraria a morte. Em queda livre, caí sobre o casal.  Faltaram-me as pernas e me sobraram as mãos autômatas para selar a sorte de uma vida que não fazia mais sentido. Lembrei-me do filho que ela esperava e que não era meu na minha insanidade.

 

 Deixei-me conter pela segurança enquanto via meu futuro partir da estação entre acordes melódicos de uma sinfonia lírica que nunca aprendi a executar com virtude.

Ritmo dissoluto

Apaixonar-se por uma prostituta pode ser uma idéia chocante à primeira mirada. Mas o amor não faz perguntas e pode aproximar personalidades bem distintas.

 

 Lembro-me de uma vez, na juventude, em que fomos a um tradicional pub para rir um pouco da vida e, de repente, vejo um antigo companheiro de braços, beijos e abraços com uma profissional venérea, sem nenhuma crise existencial. A surpresa foi complementada pelo fato da referida môça ser, também, irmã de um dos juvenis do bando. Foi assim mesmo: do estranhamento para a familiardade não se passaram segundos.

 

 Outra vez foi o engenheiro que conheceu uma linda passageira na ponte aérea. Trocam seus telefones após uma conversa de identificação mútua plena. Era duas almas gêmeas que tergiversavam, duas pombas-sem-fel entre arrulhos. Teriam casado se não fosse pelo texto do cartão da beldade: “também casais desinibidos”. Sem trocadilhos infames, mas nosso amigo perdeu a viagem. Poderia ter conhecido ali a mãe de seus futuros e ilustres filhos, uma mulher de fibra.

 

 Não são poucos os exemplos de filhos do encontro com mulheres heterodoxas. São bastardos: músicos, profissionais liberais, jornalistas, galãs e até presidentes.  Essas mesmas mulheres que pariram tais cidadãos passam por uma gradação de matizes da libertinagem e há desde a namorada tímida até a cafetina experimentada. Um degradê de doses  do mesmo estilo interior: a capacidade de entrega e suas conseqüências.   

Reencontro.

Quando a reencontrei, já estava opaca. Foram só três anos cronológicos que passamos sem nos ver, mas, para ela, significaram não menos que dez. Nem me refiro a sua beleza, que, sem dúvida, continuava a torná-la irresistível. Uma mulher qu nem ela, mesmo depois de amar, você não cansaria de admirar-lhe o semblante. Ela perdera, entretanto, aquele olhar vivo, intensamente expectativo, aquela fala acelerada e aqueles gestos rápidos e inúteis das mãos. Ela perdera aquela alegria pura, que multiplicava sua beleza e suas histórias por toda a cidade. Quando me viu, ainda tentou esboçar a vivacidade que por anos ficou na minha memória, mas logo as sombras  tomaram-lhe novamente o coração. Com algum tempo de conversa, vi que não era algo passageiro que a abalara. Percebi que a natureza havia roubado-lhe aquela luz indescritível com que, anos antes, presenteara-a.  A mesma natureza que destrói suas belas paisagens com aqueles tornados horripilantes; como uma criança que apaga seu desenho colorido com uma borracha suja.

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